Mostrando postagens com marcador Ficção. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ficção. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Levando chumbo em três frentes


Conhece aquele velho dito popular, nunca deposite todos os seus ovos no mesmo cesto? O protagonista dessa pequena história não só conhecia como acreditava se tratar de um bom conselho. Seguiu-o à risca, pode até ter exagerado um pouco. Decidiu aventurar-se em três frentes diferentes, assim, pensava, colheria os frutos mais rápidos.

O tempo foi passando e não vieram. Só então lhe veio a ideia de que talvez o terreno fosse infértil, impróprio para o plantio. O pensamento lhe jogou em crise existencial. O que fazer? Abandonar tudo e se aventurar em outras paragens? Insistir e finalmente tentar vencer pelo cansaço? Abandonar uma empreitada, talvez duas, e se concentrar completamente em apenas uma? Se sim, qual escolher?

Não sabia decidir. Não tinha as respostas para essas perguntas. Sabia apenas que estava cansado de esperar. Talvez morresse de fome se continuasse aguardando os resultados chegarem. Talvez, se os abandonasse, faltasse ridiculamente pouco para que finalmente viessem. E caso descobrisse que isso era verdade, jamais se perdoaria por não ter perseverado um pouco mais. Só mais um pouco.

No entanto, se fosse um soldado, estaria lutando em três fronts ao mesmo tempo. Seu batalhão já estaria reduzido a alguns poucos infelizes feridos e debilitados e estaria levando chumbo cerrado dos três lados de uma vez só. A munição acabando. Pensando que, se a hora chegasse, estenderia a bandeira branca. Rendição para viver na derrota. Ou puxaria o pino de sua última granada. Se a arremessaria ou se a seguraria, não sabia ao certo. Achava que só teria certeza quando o momento de usá-la chegasse. Por enquanto ainda tinha algumas balas na agulha. Escasseando rapidamente, mas melhor que nenhuma.

E a saraivada de fogo chovendo dos três lados, determinada a acabar com ele. Por enquanto, ainda acreditava que podia aguentar um pouco mais. Ainda poderia ver o fruto de seu investimento, triplo sucesso até. O dito dos ovos ainda poderia compensar. Se tudo mais falhasse, ainda tinha aquela granada. Segurava firme o pino no lugar enquanto alternava olhar para as três direções.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O monstro se manifesta


É uma coisa meio Jekyll e Hyde, meio Incrível Hulk. Ele também acreditava que havia um monstro furioso dentro dele esperando qualquer descuido para escapar, fazer um estrago, descontar a raiva contida.

Não acreditava que, ao se descontrolar, virava uma grande criatura verde que convenientemente nunca perdia as calças, mas acreditava que durante os acessos mudava, sim. Transformava-se em algo horripilante. Algo que não reconheceria no espelho.

As feições mudadas, deformadas por toda aquela raiva cega que não sabia explicar de onde saía, nem de onde vinha ou para onde ia. Num momento estava tudo bem, e então acontecia, num estalar de dedos. Metamorfose, a criatura irracional e incontrolável assumindo o comando. O ato de destruição inconsequente. E, ao final, como o resultado da passagem de um furacão, a trilha de destroços e os estragos a serem mensurados.

O monstro não assume responsabilidade alguma. Vem, vê e estraga. Para logo depois sumir nas profundezas da alma de seu alter ego, esperando e espreitando pela próxima oportunidade de escapulir. Sua outra metade que se vire com os danos. Que conserte tudo, lide com a vergonha e com as relações abaladas, talvez prestes a desmoronar.

Se um lado é implacável e livre de culpa, o racional pesa tudo e se remói, se tortura sem parar por atos que não são inteiramente culpa sua. Não se pode mudar a genética. No fim, tudo não passa de um infeliz acidente genético. Está tudo gravado no DNA, e não há técnica de aprimoramento que o combata. Como um bebê que nasce na água já nadando, a vontade de estragar tudo sem medir consequências deriva do mesmo caldo primordial.

O lado racional vem depois, quando a criatura já se foi, para analisar e controlar o incêndio, administrando a tragédia como um burocrata cansado. Preso na rotina. Só mais um dia na vida, tudo dentre a mais perfeita normalidade. O monstro? “Ah, normal”, ele responderia. “Isso acontece muito por aqui. Manja Tóquio e o Godzilla? Então, é quase igual”.

Entre um episódio e outro, o calmo e recém controlado alter ego vai juntando os cacos, recompondo o controle de sua vida momentaneamente tomada por sua versão mais furiosa. Contando os minutos para o próximo surto, pois sabe que é inevitável. Quando o monstro se manifesta, o melhor é sair do caminho e torcer para acabar logo. Antes que algo importante finalmente seja despedaçado além de qualquer reparo.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Se Chaves fosse feito hoje


— Cara, cê já pensou se o Chaves fosse feito hoje?
— Como assim?
— Se ao invés de ter sido filmado em mil novecentos e guaraná com rolha ele fosse filmado hoje em dia.
— Não dá.
— Como não?
— Já morreu metade, e a outra metade já tá tudo velha.
— Cê me entendeu, se eles tivessem a mesma idade daquela época.
— Mesmo assim não ia dar.
— E cê vai dar argumentos ou vai continuar falando gracinha?
— Antigamente era tudo mais inocente, hoje é tudo mais na cara, mais hardcore.
— Dá um exemplo.
— Vamo lá: a Chiquinha sai de casa, atravessa o pátio e bate no barril do Chaves. Ele se levanta, mas não é possível ver suas mãos.
— Por que não?
— Já chego lá. Lembra que ela queria namorar com o Chaves, né?
— Lembro.
— Então: ela já ia chegar querendo ficar com ele, perguntando na lata.
— Isso não ia ser tão ruim assim.
— É que cê não sabe a resposta dele. Ele ia dizer que não podia no momento porque tava pipando. Aí ele levanta a mão, revelando um cachimbo de crack e dando uma tragada.
Isso foi grotesco.
— Eu não disse que ia ser bonito, só tô explicando como ia ser.
— Vou fingir que acredito. E o Quico.
— Boyzinho, com terninho de marinheiro, no meio dos marginais? Ia rodar bonito. O Chaves ia ameaçar ele com uma faca e roubar o celular dele pra descolar uma garrafa de tequila, aquela com verme dentro, pra esquentar aquele barril de noite.
— Pra começar, ele não mora no barril, mora no 8. E de onde cê tirou esse celular?
— Ué, a ideia não era o negócio ser filmado hoje? Até minha sobrinha de dez anos tem celular! Ela vai ligar pra quem, pros Ursinhos Carinhosos?
— E o Quico?
— Ia chorar na parede. Mas depois a mãe dele dava uma grana pra ele comprar outro telefone.
— E aí o Chaves roubava de novo...
— Agora cê sacou o círculo vicioso. E por falar na mãe do Quico, se ela estapeasse o Seu Madruga, sabe o que ele ia fazer?
— Descer a porrada na Dona Florinda?
— Que nada, esse aí é esperto, é dos nossos, ia terceirizar o serviço. Contratava o Chaves pra dar cabo da velha a troco de umas pedrinhas de crack e um sanduíche de presunto.
— E aí ele fumava as pedras, comia o sanduíche, pulava a janela da Dona Florinda e...
— E que eu não quero nem imaginar. Só sei que ia pular de volta pro pátio com as mãos todas sujas de sangue. Aí olhava pra câmera e soltava um “foi sem querer querendo”.
— Pra que parar na Dona Florinda? Já que é assim, a primeira vez que o Sr. Barriga aparecesse pra cobrar os 14 meses de aluguel, o Madrugão botava o Chaves em ação de novo.
— É o que eu tô te dizendo. O velho barrigão ia levar uma daquelas tijoladas clássicas na cabeça, manja? Com o retângulo de isopor pintado? E mais outra, e outra, e outra. Ia ser uma chacina. Ia sair levado pela Cruz Vermelha, “morrido”.
— E o Chaves?
— Ah, ele ia chorar, claro. Soltava aqueles “pi-pi-pi-pi-pi” dele, mas fazia o serviço.
— Cê tá acabando com as minhas memórias de infância.
— Foi você que perguntou. Aguenta aí que já tá acabando.
— Ah, tem final?
— Claro que tem. Acaba na sala de aula do Professor Girafales. O maestro linguiça lá, nem aí, trocando torpedo de sacanagem com a nêga que ele catar depois da finada Dona Florinda e a sala aquela algazarra.
— Tirando o celular, até que também não é tão diferente assim.
— Nessas entra os PMs, ou seja lá o que eles tenham em Acapulco.
— O programa não se passa em Acapulco.
— Foda-se, vai ficar se apegando a detalhes?
— E o que é que cê tá fazendo até agora?
— Cacete, quer saber como acaba ou não?!
— Quero, fala de uma vez.
— Eles invadem a sala já algemando o Chaves do 8. Rodou, moleque, e o escambau.
— Matou um ricaço, se fodeu, é isso?
— E não? Aí os PMs lá, arrastando ele pro camburão, ele olha pra câmera de novo e fala “é que comigo ninguém tem paciência...”.
— Até que amarrou direitinho.
— É, só que se fosse assim não ia durar trinta anos, ia durar um mês!
— Tem razão...
— No quê?
— Eu devia ter ficado quieto.
— Então por que pergunta?

quarta-feira, 20 de junho de 2012

A festinha acaba quando o anfitrião apaga


“Tô pensando em fazer uma festinha, como nos velhos tempos.”
“Tá apoiado.”
“Vou chamar uns camaradas...”
“Retiro o apoio, e a mulherada?”
“A mulherada os camaradas trazem, cada um traz umas três e tá de boa.”
“E cabe toda essa galera aqui?”
“Claro que cabe, é só rearranjar os móveis, jogar esse sofá pra lá, botar a pickup aqui.”
“Pickup?”
“É, a festinha vai ser profissa, vou contratar um DJ, alugar equipamento de som de qualidade.”
“Então vai ser festão.”
“Não, festinha, pouca gente, os casados podem vir, mas é pros solteiros se arranjarem.”
“Aí sim, mas tá faltando uma coisa...”
“Fala aí.”
“Se a festinha vai ser aqui, não é melhor ver aí com o dono da casa se ele libera?”
“Claro que libera, vai ser coisa pequena, umas trinta pessoas, ouvindo um som, trocando uma ideia, pega nada.”
“E o DJ bombando.”
“Isso aí, e nada dessas música mela-cueca que cês escutam, o negócio vai ser pra dançar, tipo uns funk!”
“Funk carioca?”
“Não, tá louco?! Funk do bom, do clássico, com F maiúsculo. FUNK!”
“Ah, tá, pensei que era funk.”
“Não, é FUNK!”
“Então tá, mas o lugar já tá liberado?”
“Claro que tá, pega nada, o cara é brother.”
“O brother tá dormindo com a cerveja na mão.”
“Puta, apagou, já? São nem quatro e meia...”
“É a idade.”
“Vai derrubar essa cerveja aí.”
“Nada, daqui a pouco ele acorda e mata o resto.”
“Mas na festinha nada de dormir, se não deixa todo mundo bodeado.”
“A festinha acaba quando o anfitrião apaga.”
“Então vamo falar pra ele dormir bem na véspera.”

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O pesadelo do tempo


Outro dia acordou assustado de uma noite agitada, como há muito não acontecia.  Sonho inquietante, daqueles que o impediu de voltar a dormir. O fez se sentir culpado por perder tempo na cama, pois girava justamente em cima disso. O tempo.

Sonhou que perdia tempo. Escapava-lhe numa velocidade impressionante. Fugia-lhe fisicamente, não apenas metaforicamente. Abandonava-o como boas ideias, com facilidade desconcertante. Num momento era manhã, no seguinte fim de tarde, as primeiras penumbras da noite já se avizinhando.

Como isso aconteceu? Sentia ser estranho até para a física torta dos sonhos. Perdeu muito tempo tentando decifrar o que havia de errado naquele cenário. De novo a palavra aqui é tempo. Quando finalmente se deu conta, já havia sido engolido pela madrugada e ficou horrorizado. Aonde aquele dia que mal havia ainda nascido foi parar? Não podia ter se acabado, vindo e ido embora na velocidade de um raciocínio. Mas foi o que aconteceu, o que o perturbou.

O termo “contagem regressiva” veio-lhe imediatamente à mente. A sensação de que ela chegaria ao fim se não saísse logo dali tomou todo seu corpo. No fim, foi o que o fez acordar, o corpo dolorido, cheio de espasmos, todo torto na cama, uma salvaguarda para o subconsciente perdido entre realidade e ficção.

Sentiu-se gradativamente melhor com o passar dos dias, mas a sensação não chegou a desaparecer por completo, bate no fundo de sua mente como um pêndulo, lembrando-o constantemente dos ponteiros a se mexerem em ritmo acelerado. Logo será noite novamente. Qualquer dia desses se perde de vez em pensamentos. Qualquer dia desses o tempo lhe escapa.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Cereal killer


Diversos agentes da polícia cercam uma casa no meio do mato. Todos fortemente armados e preparados para atirar. O policial líder toca a campainha de arma em punho. Após alguns segundos, a porta se abre revelando um sujeito calmo, muito embora suas roupas estejam manchadas do que parece ser sangue seco.

Pois não?
Polícia, meu senhor.
Aconteceu alguma coisa?
Temos um mandado de busca nas premissas.

O serial killer abre totalmente a porta, e um monte de policiais adentra a casa se espalhando por todos os cômodos e criando um perímetro. O policial dá uma olhada geral na sala.

Recebemos uma denúncia anônima a respeito de mortes na propriedade.
Mas que absurdo.
Isso aí na sua roupa é sangue?
Não, é só molho de tomate.
E isso aí nas suas mãos?

O serial killer mostra as mãos, encharcadas de sangue fresco.

Isso é sangue.

Os policiais ficam em polvorosa.

É sangue de animal. Eu sou caçador. Tava preparando um coelho à fricacê.
— Seu monstro! – exclama um outro policial.
— Ele é muito sensível – o policial líder confidencia ao serial killer. – É vegetariano...
Aahhhh....

Outro policial, que olhava debaixo do sofá, se levanta e vai até eles.

Olha o que eu achei – diz o terceiro policial. Ele abre a mão, revelando um punhado de dentes humanos.
Como o senhor explica isso? – questiona o policial líder.
— É que eu sou dentista. Às vezes eu levo trabalho pra casa.
Eu acho que o senhor é um assassino.
Que é isso, meu senhor?! Sou um homem de bem.
— E como explica aquilo ali? – pergunta apontando para um abajur próximo.
É um abajur... É pra ler de noite.
É feito de pele humana!
O senhor tá enganado.        
Olha ali o umbigo!
É arte moderna!

Outro policial se aproxima e cochicha algo no ouvido do policial líder.

Acabo de ser informado que há cabeças humanas na sua geladeira.
Ah, vá! – exclama incrédulo. – A geladeira não é minha.
Olha aqui a nota fiscal.
— Tudo bem, mas as cabeças não são minhas.
E essas fotos que você tirou de si mesmo no momento em que cortava as cabeças?

O policial vai mostrando ao serial killer uma série de polaróides onde o assassino em série faz as mais diversas poses ao lado de variadas cabeças decepadas. Mas em todas elas ele está dando um “joinha” para a câmera.

Isso aí é circunstancial, no máximo.
— E esse manuscrito em cima da sua mesa, intitulado “Eu sou um serial killer”?
— É uma obra de ficção.
— E o subtítulo, que diz “esta não é uma obra de ficção”?
— Metalinguagem.

Um dos policiais da revista arromba uma porta e uma mulher sai de dentro, completamente assustada, e corre até o tira que a libertou, que a abraça.

Quem é essa? Sua nova vítima?
É minha namorada. A gente tava brincando de esconde-esconde.
— Esse homem me sequestrou! – berra a mulher, aos prantos.
— É que ela gosta dessa fantasia de sequestro, sabe?
— Eu nunca vi esse cara antes – torna a berrar a mulher.
— Para, benzinho, senão o moço vai achar que é sério.
— Ele cortou meus dedos! – Ela exibe a mão esquerda mutilada para quem quiser ver.
— Já tava assim quando eu cheguei.
— Isso nem faz sentido! – conclui o policial líder. – Anda, circulando.

O policial algema e arrasta o serial killer para fora da casa. Sobrou em cadáveres, faltou em malandragem.

segunda-feira, 26 de março de 2012

O fim da invencibilidade


É o conto de um rapaz e seu recorde. Estava invicto há 15 anos, se não mais. Ficou tanto tempo assim que até perdeu as contas exatas. Coisa estranha para se gabar, mas sentia um certo orgulho disso. Achava-se mais forte que os outros, que tinha mais controle. Era o mestre de seu domínio. O que consumia, ficava sob seu jugo.

A vida de campeão era boa. Não havia desafiantes à altura, nada oferecia perigo. Seu recorde estava fadado a continuar a aumentar. Não vou mentir, houve algumas ocasiões, poucas, é verdade, em que se sentiu ameaçado. Poderia perder o título num piscar de olhos, sentia subindo-lhe pela garganta. Nessas ocasiões, ou cuspia o excesso, demarcando o território, ou engolia em seco e partia para a próxima. Mestre de seu domínio, lembra?

Seguiu até se esquecer de como era estar naquela posição. Acomodou-se, relaxou. Baixou a guarda. Veio a fatídica noite. Já havia tido um prenúncio à tarde, mas como sempre fizera antes, domara o anseio, controlara a fera e cuspiu em seu corpo vencido, tomando uma lufada de ar fresco para recuperar a compostura.

À noite, tudo parecia normal, não fez nada fora do ordinário. A barriga um tanto vazia, verdade. Mas a fome logo depois foi aplacada com o pedido de sempre. A sede, afogada com a bebida, a de sempre novamente. Nada saiu do controle ali, ainda sentia-se senhor de suas terras. Eram onze da noite e tudo estava bem. Continuou a toada.

O tempo passou e tudo continuou bem. Chegou em casa e nem tudo estava tão bem. Sensação estranha, a cabeça girando e não conseguia avistar o oponente, mas sabia que ele estava lá, à espreita, pronto para desferir o golpe derradeiro. Apreendeu a inevitabilidade do fato.

Apesar dos 15 anos ou mais, não ficou nervoso, não esquentou a cabeça, lembrou-se do procedimento com uma clareza que não sabia ser possível. Entregou-se ao adversário superior e levou o golpe. Antes do longo período invicto, toda vez que acontecia ficava nervoso, não conseguia respirar durante o ocorrido.

Não dessa vez. Foi tomado por uma súbita calma, relaxou e entregou-se à maré. Foi pacífico, até estranhamente relaxante. A coisa toda levou menos de trinta segundos, e, ao fim, sentia-se muito melhor. Um fardo retirado de dentro de si. Não era mais o mestre de seu domínio e por ele tudo bem, o mundo não ia acabar por causa disso. Além do mais, sempre podia recomeçar a contagem. A vida é feita desses pequenos desafios. Recuperar, se não superar seu antigo recorde, seria apenas mais um.

Uma semana e contando.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A janela do inferno fica no terceiro andar


Essa porra dessa janela deve estar emperrada. Não fecha nunca, faça chuva ou faça sol. Nem com uma invasão de gafanhotos os desgraçados fecham a janela. Vizinho não se escolhe, você apenas se segura para não assassiná-los.

O apartamento do casal deve ter 2 metros de profundidade, só assim para explicar eles estarem sempre, em qualquer momento, na frente da janela. Já conheci quitinetes mais aconchegantes. Talvez estejam tentando fugir dos berros do filho/filha pequeno (a). Não defino gênero porque ainda não sei que diabos é aquilo. Nunca vi a criatura. Diferente dos pais, ela nunca frequenta a janela. Vai ver é adotada. Vai ver ainda não alcança. Dela só ouço a voz, pulmões de aço, grita o dia inteiro. Quando está feliz, quando está triste, quando está com fome e quando quer ver televisão. Voz andrógina, indecifrável.

O casal tem uma TV de tela plana, 42 polegadas, pelos meus cálculos. Mas eles nunca assistem. Gostam mesmo é de ouvir música. A TV fica sempre ligada no canal de música da TV a cabo. O último refúgio dos preguiçosos e daqueles sem gosto musical, deixar o canal selecionar o que você vai ouvir. O mundo era melhor quando não existia essa opção.

Eles não têm bom gosto musical, largam em qualquer canal de pop adulto, contemporâneo ou saudosista, tanto faz. Gostam de ouvir alto. Eu já mencionei que a TV fica próxima à janela?

O som invade meu ambiente, principalmente à noite, especialmente quando estou tentando dormir. Contando carneirinhos e a porra da TV cantando na minha orelha:

Na madrugada, a vitrola rolando um blues, tocando BB King sem parar.

Isso não é cantiga de ninar, é a declamação da senha para o inferno. O homem ri alto, é uma das risadas mais antipáticas que já ouvi na vida. Ele a repete de quinze em quinze minutos. O cara se diverte a valer. Eu só quero enfiar a mão na goela dele e arrancar suas cordas vocais com meus próprios dedos nus. Vizinhos...

A madrugada avança e a vitrola rolando o tal do blues, trocando de biquíni sem parar.

“Aaaahhhh, vai, filho da puta!”

É a mulher. Eu não mencionei que eles gostam de trepar em frente à janela aberta? Falha minha.

Nossa! Uuuuhhh”. Ela é escandalosa. O cara parece muito bem saber quais botões apertar. Não é erótico. Eles transam ao som de Jorge Vercilo. A meu ver, qualquer um que faça sexo com uma trilha sonora dessas está cometendo um atentado violento contra um dos melhores atos da vida. Esse tipo de gente devia ser proibida de gozar.

“Aaaahhhh, caralho!”

Acho que ela gozou. Quem sabe agora não bate o sono pós-coito e eles vão dormir? Nada. Falta o cigarro de depois da transa. Só ela fuma, ele gosta de dar risada. Tapinha nas próprias costas por mais uma comida bem dada. Vizinhos...

Na madrugada, a vitrola rolando um blues, tocando Jorge Vercilo sem parar.


Comprei um rifle no mercado negro, conheço um cara em lugares baixos. Me fez um desconto bacana quando contei para o que era. Rifle de precisão, mira telescópica. Não sei usar essas merdas, mas o cara falou que é só mirar e atirar, não tem segredo.

Da janela do meu banheiro dá para apontar o negócio escondidinho e ainda pegando toda a janela deles. Deixo minha luz apagada. Estão lá na frente, ela fuma, ele ri. Gargalha. Parece que hoje vai ter. Vai, filho da puta. A TV toca uma música do mestre, o original. Vai, Djavan, nossa!

Quero mandar os dois pro inferno, mas aquele apartamento já parece ser uma versão terrena dele. Será que dá pra piorar? Existe algum Jorge Vercilo cover? Não é problema meu. O meu problema é que na madrugada, a vitrola rolando um blues, tocando BB King sem parar. Sem parar. Sem parar!

Faço uni-duni-tê, o escolhido foi você, homem. Miro na testa. Ele gargalha de alguma coisa. Vai rindo. Puxo o gatilho e o estampido ecoa pela janela. Depois ela. Vai, filha da puta, nooossa. Foi bom pra você? Vizinhos...

Só sobrou a TV. Com aquela vitrola rolando um blues na madrugada. Até que não é uma música tão ruim assim.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Sobre bêbados, seus ânus e o direito à propriedade


- Véio, acelera aí que eu preciso dar uma mijada!
- Tô acelerando, porra!
- Acho melhor eu dirigir.
- Tu tá bêbado!
- Cê também.
 
- Mas tu não tem idade pra dirigir. Cadê a carteira de motorista? Mostra aí.
- Véio, a gente tem a mesma idade.
- Mas o carro é meu, caralho!
- Para aí que eu preciso mijar.
- Faz pela janela.
- Tá bom.
...
- Cara, tô muito louco.
- Quantas cê tomou?
- Sei lá, perdi as contas depois da quinta.
- Cerveja?
- Tequila.
- Véio, tem um mendigo ali. Vamo zoar ele!
- Como?
- Vou tacar essa garrafa na cabeça dele.
- Pode crer!
- Como é que abre a janela mesmo?
- Aperta o botão aí na porta.
- Vai mais devagar... Porra, errei. Acelera, acelera!
...
- Cara, que cheiro é esse aqui no carro?
- Sei lá, véio...
...
- Ô, cuidado aí.
- Calaboca que eu sei o que tô fazendo.
- Tá meio perto da guia.
- Aqui a coisa é pró!... Que barulho foi esse?
- Cê subiu em cima da guia.
- Pega nada.
- E ralou o carro no poste.

... 
- Puta que pariu, meu pai vai me matar! 
- Puta ralada, hein? Tirou toda a tinta. 
- Meu pai vai me matar. Quando ele descobrir que peguei o carro e ainda fodi essa merda, ele vai me dar um tiro na cara!
- Quer voltar pra casa?
- Foda-se, agora já era, vamo continuar. Tem mais cerveja aí?
- Tem, mas já tá quente.
- Não tem problema.
...
- Aí, cara, olha aquelas puta ali.
- Quê que tem?
- Vamo catar uma.
- Sério? Vamo aí.
- Qual que tu quer?
- Tira o pé aí pra nós poder ver direito.
- Cara, olha aquela lá.
- Qual?
- Como qual, porra, aquela com os peitão de fora. Puta gostosa!
- Peraí...
- Que foi? Se falar que não gostou, tu deve ser viado!
- Não é isso não. É que eu acho que não é mulher não, véio.
- Que não é mulher o quê?!
- Eu acho que é traveco.
- Tá viajando.
- Tem cara de traveco.
- Mas os peitão!
- Silicone.
- Silicone é o cu da tua mãe. Traveco não tem umas curva dessa não.
- E mulher não tem gogó. Sem falar naquele outro negócio.
- Que outro negócio?
- Cê tá mal mesmo...
- Cara, tu vai querer pegar ou não?
- Tô fora, véio.
- Então desce e volta a pé. Eu vou comer.
- Problema teu. Eu te avisei.
- Vai tomar no teu cu.
- Tantas piadas...
- Quê?
- Nada, amanhã me conta como é que foi...
 
- Pó deixar. Enquanto tu fica na bronha, eu vou mandar brasa naquele rabo.
- Acho que não é o rabo dela que vai arder.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Casa das mentiras




– Cê chegou tarde.
– Tava trabalhando.
– Sei...
– O que cê quis dizer com isso?
– Nada.
– Senti uma ironia nesse “sei”.
– Cê que tá achando coisa que não existe. Eu só sei falar desse jeito.
– Sei...
– Agora vai querer dar o troco, é?
– Como assim?
– Não se faz de engraçadinho, cê sabe do que eu tô falando.
– Juro que não tive intenção nenhuma.
– Eu acredito.
– De verdade ou tá sendo irônica?
– Qual você acha?
– Vou chutar “de verdade”.
– Então pronto.
– Cê ficou aqui o dia todo?
– E pra onde mais eu iria?
– Ficou aqui sozinha?
– Claro que sim.
– Não chamou nenhuma amiga?
– Cê sabe que eu não tenho nenhuma.
– Por que será?
– Quê?
– Nada.
– Vou fingir que não ouvi.
– Obrigado. E também não veio nenhum amigo?
– Pra quê esse interrogatório agora? Cê sabe que eu não conheço ninguém por aqui.
– Aquela gravata não é minha.
– Que gravata?
– Aquela listrada ali em cima do braço da poltrona.
– Cê deve ter largado ela lá.
– Eu não uso gravata cafona que nem essa. Não vai querer me dizer que é sua.
– ...
– Acabou o estoque de mentiras?
– Eu te odeio!
– Até que enfim alguma verdade nessa casa...