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sexta-feira, 24 de abril de 2020

Capangas ressuscitados


Já que eu reativei esse blog, vou aproveitá-lo pra desovar algo que estava apodrecendo no fundo de uma gaveta virtual já faz uns bons tempos: a segunda temporada de Capangas Contratados. Para ser mais exato, ela já estava escrita há seis anos. E lá permaneceu, como um cadáver em decomposição escondido pelos três protagonistas da série.

Na verdade, já faz tanto tempo que eu não me lembro mais porque ela não foi publicada como o planejado, mesmo estando toda no papel. E foi ficando, e os anos foram passando. E aqueles três psicóticos malucos enterrados vivos, com suas novas aventuras devoradas pelas traças virtuais.

Aí, quando reativei o blog e recoloquei a primeira temporada e também Vida e Obra de um Ninguém de volta no ar, pensei, por que não aproveitar e desenterrar a segunda de Capangas Contratados? Então é isso que eu vou fazer.

O humor politicamente incorreto, beirando o ofensivo e o escroto ainda estão lá. E a passagem dos anos deixou algumas coisas, ainda bem, quase além do aceitável. Mas aí eu lembro que se trata de uma história totalmente exagerada, quase cartunesca e splatter, de três psicopatas que matam sem distinção de raça, gênero ou credo e aí tudo fica bem, oportunidades iguais para todos!

Por isso, fiz alterações mínimas durante a nova revisão. Não escreveria mais algumas coisas como seis anos atrás, mas se ficasse refazendo tudo viraria uma maçaroca desconjuntada. Melhor deixar como um retrato do passado mesmo, com seus erros e acertos, até porque, para minha surpresa, gostei da maioria das coisas que reli.

Essa temporada havia sido concebida para ser menor que a primeira, com 16 episódios ao invés dos 26 da anterior. Está mais sucinta, mais redondinha, mas igualmente divertida (para quem gosta desse tipo de humor demente e dessas referências de cultura pop, claro).

E ela também funciona tanto como desfecho para a série quanto dá margens para a história continuar. Para ser sincero, duvido que isso vá acontecer, mas nunca se sabe. Vai que daqui há mais seis anos me dá na telha de sentar a bunda no computador e batucar uma terceira temporada apenas porque sim? Vai que...

Mas se não for, essa funciona como um final bacana para a sangrenta saga de Tavares, Souza e o Novato (e sim, mesmo todos esses anos depois, sejam os passados no mundo real ou os transcorridos dentro da história, ele continua sendo tratado assim).

Enfim, vou publicar um por semana e ele não está naquela diagramação com projeto gráfico bacana da primeira temporada porque eu não sei fazer aquilo (era o Jean Di Barros que diagramava todas as sitcoms literárias) e não estou a fim de aprender. Prefiro fazer outras coisas, tipo fuçar no fundo do baú pra ver o que mais sai de lá.

Mas o texto, que é o que importa, está todo lá, arrumadinho, revisado e escorrendo sangue e tripas fictícias a cada página. Então, se alguém aí estava com saudade do trio de delinquentes menos famoso do mundo, volta aí semana que vem para a estreia da nova temporada.

terça-feira, 14 de abril de 2020

Quando a música era tátil



Um tempo atrás fiz algo que não fazia já há um bom tempo: comprei uns discos. Discos físicos, CDs, aquele formato ultrapassado, quase morto. Mas que ainda resistem, aguardando seus últimos suspiros. 

Eu mesmo resisti bravamente até onde pude. Comprava discos quando praticamente ninguém mais o fazia. Quando todos já baixavam em mp3 e, posteriormente, ouviam em streaming. Comprava porque ainda acreditava naquela qualidade física, tátil, e, sejamos francos, possessiva.
        
Aquele disco era meu, fui lá, escolhi, paguei, e cada escutada é prova de meu investimento em ação. Assim como o investimento do artista, que foi lá, gravou entre 10 e 14 músicas, pensou na melhor ordem para arranjá-las em um trabalho coeso, completou com um projeto gráfico que dialogasse com a sonoridade, lançando tudo num pacote atraente. Apenas para a molecada mais nova ignorar tudo isso solenemente e ouvir só uma ou duas faixas nas plataformas digitais e olhe lá.
        
Eu tenho uma personalidade de colecionador. Quando gosto de algo, gosto de ter aquilo. Sejam discos, filmes, livros, quadrinhos, gosto de ter a possibilidade de, se quiser revisitar aquela obra a qualquer momento, ela estar ao meu alcance físico, sem precisar ligar o computador para isso.
        
Nem vou entrar em méritos e deméritos de consumismo e possessividade, já fiz essa autoanálise e prefiro deixá-la só para mim. Acima de tudo isso, é simplesmente bom pegar algo na mão, sentir nos dedos. A música pode sim ser tátil e o foi durante décadas, tá aí o vinil até hoje, talvez o maior exemplo de fetichização musical, desde tirar a bolacha da capa, sentir seu cheiro característico, até o momento em que a agulha entra em contato com as ranhuras, fazendo aquele barulhinho tão próprio.
        
CDs eram assim para mim. Foi a plataforma da minha geração. Gostava do ritual inteiro. Desde abrir o plástico que embrulhava o disco novo, colocá-lo no aparelho de som (lembra deles?), manusear o encarte e, se houvesse, ler as letras enquanto ouvia as canções. Isso fez maravilhas pelo meu inglês.

No meu tempo é que era bom
        
Claro, isso era coisa de moleque, na vida adulta não é tão fácil arrumar tempo para verdadeiramente ouvir música. Escutar enquanto não se faz mais nada e não como mera atividade paralela, como ruído de fundo, para abafar aquele silêncio tão incômodo, Deus o livre de ficar um segundo sequer sozinho com os seus pensamentos...

Hoje o lugar onde mais ouço música é no carro e não em casa. Mas ainda assim comprava discos, no final mais pelo puro colecionismo, pela completude da discografia de alguma banda/artista do que por qualquer outra coisa. Já não era mais por prazer.
        
Achava que nunca ia me cansar da música, que em um momento ou outro ela sempre acharia o caminho de volta (como já havia acontecido algumas vezes). Que aqueles que diziam que não se fazia mais nada de novo bom – que não ouviam mais novidades – eram clichês ambulantes, e que isso jamais aconteceria comigo. Escrevi até textos explorando esse ângulo.
        
Mas a vida é imprevisível e, quando menos percebi, exatamente isso acabou acontecendo comigo também. E nem foi aos poucos, ainda que não seja capaz de precisar um momento específico. Mas chegou uma época em que simplesmente... desencanei. De praticamente tudo na música. Parei de comprar CDs, ainda baixava, mas mal escutava. Duas ou três vezes, se tanto, e ia para alguma pasta no meu computador pegar poeira virtual.
        
Virei o clichê que tanto combatia. Novos artistas não ouço mais. Não tenho mais saco para ir atrás, e mesmo quando alguma coisa é recomendada, dou uma orelhada e invariavelmente penso uma de duas coisas: fraco ou nada de mais. Aquela sensação incrível de moleque, de ouvir uma daquelas que seriam uma de suas bandas favoritas pela primeira vez, aquela coisa que mexia com seu cérebro e sensações físicas e emocionais, tentei recapturar muitas vezes sem sucesso ao longo desses últimos anos até me conformar de vez.

Meu gosto pessoal está formado, e nada mais vai me surpreender. Aquela coisa de “uma banda pode salvar sua vida” ficou na adolescência e início da vida adulta. E não volta mais, fato.
        
Mesmo novos trabalhos de artistas que eu gosto já não me empolgam mais. Caí naquele segundo clichê do fã, aquele para o qual os primeiros trabalhos são sempre os melhores. Artistas da música (pelo menos os do rock), diferente do vinho, não costumam envelhecer bem. Ouvia os trabalhos novos só para constar. Até que deixei de ouvir, até mesmo meu completismo antes beirando o obsessivo cedeu e caiu  de vez perante esse desencanto.
        
Não vou entrar na discussão sobre a qualidade geral dos artistas contemporâneos e/ou o fato de que a música acessível de todos para todos, a um mero clique de distância, diluiu gostos musicais e tornou menos especial o fator da descoberta. Tudo isso são assuntos maiores e que não vêm ao caso no momento.

Prateleiras físicas com poeira de verdade

A questão é que, depois de muito tempo, comprei dois discos. Numa loja. Eu sei, elas ainda existem, de vez em quando a gente até esquece disso. Tá, não foi aqui no país. Foi numa viagem que fiz pra fora. A loja (de uma franquia que aqui já foi forte, mas definhou e morreu até sair totalmente de nossas terras) estava ali, deu vontade e entrei.
        
Comparado com as gigantescas lojas de outrora, a sessão de discos era minúscula. Mas ainda tinha coisas que eu não encontraria aqui mesmo no auge dos estabelecimentos nacionais.
        
Pra ver como estava distante dessa parte tão importante da minha formação cultural: vou displicentemente dar uma olhada na seção da minha banda favorita, e me deparo com um disco que não apenas eu não tinha, como nunca tinha ouvido falar. Era uma coletânea de gravações feitas para um programa de uma rádio britânica entre os anos 1970 e 80, mas o álbum em si era do ano passado. Um ano inteiro se passou sem que eu soubesse de sua existência.

Foi uma constatação triste, saber o quanto eu me desliguei de algo que antes era tão importante para mim. Por outro lado, ao me deparar com aquele objeto estranho, por uma fração de segundos aquela fagulha reacendeu. Eu achava que tinha tudo deles, até o último lado b obscuro. Pense de novo, eis algumas versões que você ainda não ouviu. O moleque de 15 anos que um dia fui mandou um oi lá do fundo da minha consciência.

Aí me lembrei de outra banda. Sempre quis seu disco mais conhecido, mas nunca o achava para comprar. Dei de cara com uma edição especial comemorativa do seu aniversário de 20 anos. O disco remasterizado acompanhado de material extra, faixas ao vivo, demos, o esquema todo.
        
Eu consegui sentir meu sorriso se abrindo quando o peguei na mão. Naqueles breves minutos na loja, com aqueles dois CDs em minhas mãos, relembrei o que a música tem de especial para mim, e tudo aquilo que andava enterrado nos últimos tempos.
        
Claro, eu só poderia ouvi-los quando voltasse para casa, mas mesmo essa espera gerou aquela expectativa boa, do momento onde ia parar tudo (porque eu ia parar como o fazia antigamente, a ocasião pedia) para ouvi-los.

Aquela velha sensação

Nesses poucos minutos me deu saudade de voltar a comprar discos, não pela internet, como fazia já na minha chamada fase terminal, mas presencialmente. Perambular pelas gôndolas, dedilhando as caixas, tentando encontrar aquela joia perdida, escondida entre tantos outros. Não ter um objetivo definido, mas sim ser surpreendido, descobrir algo novo casualmente. Algo que torrents e streamings mataram, com suas milhões de opções na ponta dos ouvidos convidando ao descaso imediato.
        
É outra forma de se ouvir música. Nem certo nem errado. Só não é a minha forma de se ouvir música. E eu nem sou tão velho assim para renegar a tecnologia. Nada contra, ela é útil e prática. Conheci muitas bandas e artistas que do contrário jamais teria acesso. Mas repito: não é a minha forma de ouvir música.
        
Naquele encontro casual com aquela loja de discos, fui relembrado de algumas boas sensações que a minha forma de abordar a música me proporciona. Eu não estava morto por dentro para ela, apenas hibernando.
        
Bom saber que ainda era capaz de sentir um pouco daquela excitação juvenil. Agora sei que ela ainda está por aqui, é muito mais difícil trazê-la à tona, mas ainda é possível.
        
Sei também que essa compra foi um fato isolado. Não vou voltar a comprar discos com a regularidade dos bons tempos. É capaz até de passar mais alguns anos sem adquirir nenhum álbum novo (baixar na internet não conta), mas se o acaso me colocar novamente em uma situação similar, por que não?
        
Aqueles discos em minha mão, a música não apenas como meio sônico, mas também tátil, esse é o meu modo de apreciá-la. Nada contra o vazio do ciberespaço, mas música você ouve, você enxerga, está ao alcance de seus dedos, não em sentido figurado, não como metáfora para a facilidade da internet, mas no sentido literal. Eu fui, peguei, transportei. Música quando mídia tátil.
        
As pequenas alegrias. Às vezes cabem na palma da mão.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Meio Mad Max


Para quem sempre gostou de cenários pós-apocalípticos, é curioso como alguns deles ultimamente ameaçam de acontecer (ou começam a ocorrer) na vida real.

Ruas vazias, comércio fechado, idiotas estocando mantimento, os aproveitadores de sempre tentando se dar bem com o medo e apreensão da população. Se você já viu um filme ou leu um livro/quadrinho de temática pós-apocalíptica, conhece esses lugares comuns. Às vezes eles saltam da ficção para a realidade.

A definição é errônea. O apocalipse não aconteceu (ainda). Talvez daqui há mais dois ou três vírus, quem sabe os mortos não passem a caminhar sobre a terra por falta de lugar no inferno.

Por enquanto o cenário não é tão ermo. Não chegamos lá, estamos apenas a caminho. Como no primeiro Mad Max, onde a civilização ainda não havia desmoronado, mas o pano de fundo dava a entender que tudo estava indo para o saco, embora as instituições fizessem um último esforço para manter a ordem. Era preciso prestar atenção nas conversas e informes do rádio da polícia para pegar os detalhes desse panorama.

Ou ainda The Rover – A Caçada, que se passa numa situação similar, com menos detalhes ainda. Parece ser um colapso econômico levando o mundo à boca da ruína da sociedade. E qual é a dos australianos com esse tipo de construção de mundo, a um passo da falência total? O que será que eles sabem lá do outro lado do planeta?

Eu sempre gostei desse tipo de história, tanto as verdadeiramente pós-apocalípticas quanto as do tipo “à beira do colapso”. É um bom exercício imaginar o mundo em alguma situação similar, como seria viver nele.

E eis que ultimamente nem precisamos mais desse exercício. Quando, numa segunda-feira que não é feriado nem qualquer outra data especial, você tem ruas vazias, quase desertas, com menos trânsito que nas festas de fim de ano? Comércio fechado, poucas pessoas andando pelas ruas, muitas de máscara. Faltou só aquela decoração de fim de mundo, asfalto rachado (bom, isso até que é fácil de encontrar...), prédios ruindo, o mato invadindo as rachaduras no concreto, aquelas folhas de jornal carregadas pelo vento.

E uma paz que há muito não se via na terceira maior cidade do mundo. E para tudo isso acontecer, bastou apenas um vírus se alastrar... Situação de ficção científica deixando todo mundo em casa e provando que teríamos mais qualidade de vida com menos gente por perto.

E é óbvio que, justo quando a recomendação é de se isolar em casa, aí é que bate aquela vontade de ir lá pra fora, curiosidade mórbida misturada à chance poucas vezes oferecida de se poder conferir ao vivo e a cores o cenário descrito pouco mais acima.

Além da Cúpula do Trovão

Antes disso veio aquela greve dos caminhoneiros que cortou o fornecimento de combustível. Filas nos postos, racionamento dos veículos, meios de transporte alternativos. Por que é que nos filmes pós-apocalípticos ninguém anda de bicicleta?

Gasolina virou, naquelas semanas, uma commodity rara e valiosa O que é mais Mad Max do que isso? Lorde Humungus, o Aiatolá do Rock n’ Roll, ficaria orgulhoso.

Novamente ruas mais vazias, noticiários beirando o fantástico, uma chacoalhada no status quo que eu sempre achei bem interessante. Um dia você tem, no outro não. Tudo pode acabar assim, do dia para a noite. Seja a gasolina, seja o cotidiano de uma metrópole. Meu espírito de porco vibra.

Engraçado que naquele período, ironicamente, fui viajar de carro (após conseguir um pouco do precioso líquido com meu amigo Humungus). Na metade do trajeto parei num posto. Não para abastecer, mas para esticar as pernas, usar o banheiro, comprar um tira-gosto. O local estava quase deserto, nada dos ônibus que sempre paravam lá, um ou dois carros, moscas voando e um cachorro sarnento.

E vindo do sistema de som do local, Tina Turner cantando We Don’t Need Another Hero. Não seria mais perfeito nem se alguém tivesse escrito isso. Nem se tivesse saído da imaginação do próprio George Miller. Porque estava acontecendo. Uma sincronicidade incrível ou o gaiato que controlava o sistema de som também era fã de Mad Max e também reconheceu a situação que fazia ecos à série e a trilha sonora perfeita para o momento?

Gosto de acreditar no primeiro pela pureza, mas o segundo também me agrada pelo senso de humor similar ao meu. É sempre bom saber que em tempos que se aproximam do fim ainda há ironia no ar. Mesmo que venha misturada a um vírus letal. 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Pesadelo recorrente

 

Tenho um certo pesadelo recorrente. Devo tê-lo tido umas cinco ou seis vezes, mas apenas recentemente consegui me lembrar dele com clareza. Estou na faculdade de jornalismo e por algum motivo tenho de cursar uma aula de... matemática.

Como se isso já não fosse assustador o suficiente, eu compareço apenas à primeira aula. A professora era daqueles tipos liberais, que não ligam para frequência. Contanto que eu aparecesse para fazer a prova, e passasse nela, tudo bem. Óbvio que não fui a uma aula.

E de repente o dia da prova finalmente chega e só então me dou conta: eu não sei nada. Eu não sei nada! Bate o desespero, mas fazer o quê, a vida é feita de escolhas. Se optei por não aparecer antes e talvez aprender alguma coisa, só me resta arcar com as consequências. A gente colhe o que planta, diria o pessoal das antigas. E como era mesmo o teorema de Pitágoras?

Costumo acordar desse pesadelo totalmente desorientado, como em filme americano, onde as pessoas sentam na cama com agilidade impressionante para quem estava inconsciente até um segundo atrás . Fico até confuso por um tempo se realmente tive essa aula na faculdade e se o sonho, portanto, foi baseado em fatos reais. Aí minha cabeça clareia, me lembro que cursei jornalismo, agradeço por isso e volto a dormir, torcendo para não sonhar mais com matemática. Mas a ameaça está sempre à espreita.

PS: Por que estou escrevendo isso? Por nada, só para ver se volto a movimentar mais esse blog, que anda bem abandonado nos últimos meses.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Adeus, videolocadora


Do outro lado da rua aqui de casa tinha uma locadora. Tinha, do verbo “já era”. Há algumas semanas ela fechou as portas em definitivo e atualmente a casa em que ela ficava está sendo demolida. Essa era uma das últimas aqui do bairro a resistir bravamente. Menos uma. Faltam umas três ou quatro.

Pra dizer a verdade, nem me lembro de quando foi a última vez que entrei lá. Certamente alguns bons anos, fácil. Qual o último DVD que aluguei lá, então, não me recordo de jeito nenhum. A pirataria, seja nos DVDs de camelô, seja em casa, com os torrents, matou a cultura da locadora. Assim como o MP3 aniquilou a cultura do álbum e as lojas de discos.

Não há como concorrer, a internet é a maior videolocadora do universo conhecido. Com um acervo beirando o infinito, você fica com o filme pelo tempo que quiser e o precinho é bem camarada: de graça. Quem não se seduziria com isso? Com uma internet de boa velocidade, pode ser até mais rápido baixar o filme do que ir buscá-lo na locadora.

Eu entrei nessa onda de cabeça, não nego, e estou adorando. Tento manter uma singela meta de assistir um filme por dia, seja em casa ou no cinema. E a locadora universal me ajuda a chegar perto dessa média. Tendo tudo à disposição e sem pagar nada, assisti muita coisa que normalmente não me arriscaria. Se eu não gostar, é só apagar e pronto, sem problema.

A locadora deixava a pessoa mais seletiva. Fazia ir só na boa, arriscar menos, afinal, era difícil apostar seu suado dinheirinho numa bomba em potencial. Pra garimpar alguma coisa boa era preciso um pouco mais de atenção, informação, ler a contracapa, conhecer os realizadores. E mesmo assim, às vezes, ainda saía pela culatra...

Quando estudava cinema, próximo à faculdade havia uma locadora que tinha uma ótima promoção: sete filmes (de catálogo) por sete dias a sete reais. Virei sócio na hora, assim como alguns amigos meus. Essa foi outra época que vi filme pra caramba. Íamos em dois ou três, cada um pegava seus sete filmes e depois promovíamos um troca-troca (cinematográfico!).

Vi um monte de coisa boa. Me lembro que ela tinha a melhor seção de terror que já vira numa locadora da cidade. Também tinha uma excelente prateleira de clássicos e uma respeitável de ação. De filmes do Werner Herzog a Fome Animal, vi de tudo. Incluindo muitas porcarias também, mas isso faz parte do jogo.

Depois que me formei, nunca mais voltei lá. Longe demais de casa. Imagino que já deva ter seguido o mesmo destino de outras locadoras da cidade, incluindo a do lado aqui de casa. Se é o caso, presto aqui minhas homenagens a ela. Teve um papel fundamental em minha formação cinéfila.

Por mais que tenha boas memórias dessa época, contudo, não fico particularmente nostálgico quanto a isso. Os tempos mudam. Às vezes, no caso do MP3, para pior. Mas no dos filmes, pra melhor. Minha antiga locadora fechou e está virando uma pilha de entulho. A nova está dentro de casa, à minha disposição 24 horas por dia. O acervo, limitado apenas por minha imaginação. Hora de ver o filme do dia.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A cerca


Perto da casa do meu pai no interior há um terreno baldio. Ele sempre esteve lá, desde que eu me lembro. Tem o tamanho exato de uma casa, mas por algum motivo que nunca soube, ou já esqueci, nunca ergueram nada ali.

Os moradores da rua improvisaram um banco de praça na frente e a criançada do bairro jogava bola ali. Fizeram uma trave com pedaços de pau que davam sopa lá dentro e a outra era aquela tradicional composta por chinelos e tênis de quem estivesse presente.

Até eu, que nunca fui de praticar qualquer esporte por livre e espontânea vontade, joguei ali em algumas ocasiões na minha infância e pré-adolescência. Marquei meus gols, catei no gol e sujei as bermudas e ralei os joelhos na terra batida do terreno. Sempre tinha molecada ali, fazendo barulho, enchendo a vizinhança de vida. Pra mim, isso definia a diferença entre cidades grandes e as do interior.

Fiquei uns quatro anos sem ir à casa do meu pai. Voltei lá nesse Natal. A primeira coisa que me chamou a atenção, assim que saltei do carro e meu olhar se dirigiu para o outro lado da rua, foi a cerca fechando o terreno. De outro modo continuava igualzinho, o mato baixo, o banco improvisado na frente. Mas a cerca de metal nova negando acesso era o corpo estranho ali.

De repente o bairro entristeceu. Nenhum pio durante o dia todo. De repente até o banco, ponto de encontro dos velhos, esvaziou num silêncio abismal, quebrado pelo eventual carro passando na rua que cruza. De repente aquilo não tinha mais cara de interior, onde ainda era possível jogar bola num terreno baldio. De repente parecia qualquer cidade grande, com seus espaços protegidos, entrada estritamente restrita, fique fora.

Subitamente o bairro se tornou muito mais antipático do que me lembrava. O mundo está cercado, deus me livre a molecada se divertir num dos poucos espaços verdes que existem dentro de um perímetro urbano. “Essa molecada de hoje é tudo nóia, vai é fumar maconha e crack”. Mas será que não sobrou ninguém a fim de bater uma bola?

Me senti escorraçado, indesejado. De repente não era mais bem-vindo ali. Cercas novas surgem a cada dia, nos empurrando para fora, destruindo opções. Nos obrigando a ficar dentro de casa, protegidos pelas cercas que nós mesmos colocamos. Mas pelo menos essas são nossas. O terreno próximo, mais baldio do que nunca.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Uma série de pequenos contratempos atrapalha que é uma beleza


Ok, sei que disse que tentaria manter um mínimo de postagens semanais nesse blog e não cumpri. Mea culpa. Ou melhor, em partes. Uma série de fatores tem contribuído para essa inconstância, e a maioria deles se constitui num amontoado de pequenos azares que, como diria um amigo, “já está irritando”.

Simplesmente calhou de todas essas pequenas chateações acontecerem meio que tudo ao mesmo tempo agora. Murphy é um filho da puta e parece que está de marcação comigo nestas últimas semanas, como um bully que fica me dando petelecos e atirando bolinhas de papel na minha cabeça.

Aconteceu de tudo um pouco: vírus de computador, recomendações médicas restritivas, perrengues da vida pessoal para resolver e outros compromissos profissionais mais urgentes para cuidar. Como eu disse, pequenas coisas, e a maioria delas não necessariamente ruins.

Mas as ruins, mesmo minúsculas, nada graves, amontoadas com o resto, atrapalharam pra caramba. Se tivessem sido mais espaçadas, não teria prejudicado em nada. Mas aconteceram todas juntas, e aí não teve jeito. Atrapalhou muito.

Arrisco-me a botar minha sorte novamente à prova ao dizer que acho que o pior já passou. Todas as pequenas coisinhas que poderiam dar errado, já deram, e o que vier agora é lucro. E agora que finalmente vou botando minha agenda em ordem e me reorganizando, o fim de ano já está aí, e com ele, sua tradicional correria.

Ou seja, as coisas estão entrando em ordem, mas logo terei de fazer a bem-vinda pausa das festas de fim de ano. Logo, o que quero dizer é: por enquanto as postagens do blog vão continuar assim, o mínimo do mínimo, em periodicidade menor do que eu gostaria. Passando a temporada do Chester, champanhe e roupas brancas, vejamos se consigo botar esse negócio totalmente nos trilhos de novo. Se bem que depois já vem o Carnaval...

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Sem TV e sem computador o Homer fica louco


Nas duas últimas semanas, seguindo recomendações médicas, acabei tendo de tirar umas férias forçadas de computador, televisão e cinema. Por isso o blog andou às moscas durante a semana passada. Admito, estou exagerando, não fiquei totalmente longe (só do cinema). A recomendação foi para pegar leve. Bem mais do que uso normalmente.

Deveria fazer só o básico. Olhar meus e-mails, conferir as notícias do dia, assistir uma série, ver um filme mais curto e olhe lá. Passei a racionar. E só então percebi o escopo total de minha dependência de TV e internet, a qual nunca neguei, mas não imaginava que teria tais proporções.

Minhas formas de entretenimento preferidas sempre foram primariamente visuais. Acrescente às já citadas a leitura e pronto. Mas não imaginei que ia ser tão duro cortá-las tão drasticamente. Foram duas semanas de limbo. Meio a parte do mundo. De tédio torturante, em sua maioria. Ainda bem que a leitura em papel estava liberada. E acho que, nesse período, escutei todos os meus discos.

Tive que mudar minha rotina, e eu não gosto disso. Os dias subitamente eram demasiadamente longos. Mas a necessidade é a mãe da invenção. Meus pertences nunca estiveram tão organizados. Voltei a ouvir rádio. Diabos, até mesmo saí quase todos os dias para caminhar. Você sabe, andar sem objetivo ou destino definido. Pessoas que não tem restrição com TV ou PC aparentemente fazem essa atividade por vontade própria.

Andei, andei e não cheguei a lugar algum. E ao final da segunda semana já me encontrava batendo a cabeça na parede. Se a energia elétrica subitamente abandonasse o mundo, concluí que ia querer ir junto com ela. Longas horas encarando o vazio provocam esse efeito. Eu até poderia escrever alguma coisa, mas não dava. Não porque violava as regras, mas porque minha vista não suportava mesmo. Cansava rapidamente. E é claro que, ironicamente, justamente quando estava impedido, me vieram um monte de ideias.

Escreva à mão, você me diz. Acho que não faço isso desde que saí do colégio, perdi os calos. Mas anotei várias delas. Quase desenterrei minha máquina de escrever, mas aí me lembrei que ela está sem tinta. O jeito foi anotar o que podia e esperar. Voltei essa semana, ainda não consigo dar carga total, mas é só questão de tempo até voltar à velha forma. Enquanto isso, vou dando minhas bicadas ainda modestas. Mas na TV já estou dando um arregaço!

Ah, sim, eu também não podia beber. Então, vamos recapitular: sem cerveja, quase nada de computador e TV. É, assim o Homer fica louco mesmo... de tédio.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A chegada da idade na falta de sono


Eu gosto de dormir. O ato abre as portas para o mundo dos sonhos, bem mais interessante que a vida real. Ou seja, não sou da galera que considera dormir uma perda de tempo. Pelo contrário. Acho que exercita a criatividade e fornece material para incontáveis histórias.

Ultimamente, contudo, ando dormindo pouco. Não é insônia. Apenas passei a dormir bem menos do que dormia antes. Talvez seja um sinal da chegada da idade. Não dizem que velho dorme pouco?

Não estou com nenhum problema pessoal e nem preocupado com nada para ser algo de fundo nervoso. Simplesmente tenho dormido menos. Acordo normalmente, descansado, mais cedo que o de costume. Já tentei dormir mais cedo, não dá, fico rolando na cama.

Recentemente resolvi fazer um experimento. Como eu odeio acordar no susto com o som irritante do meu despertador, resolvi desligá-lo e acordar sozinho, fosse que hora fosse. Meu relógio interno já se adaptou ao despertador, me acordando sempre antes dele tocar.

Não deu certo, mesmo sabendo que o despertador não está ligado, acordo mais ou menos no mesmo horário de antes, coloque aí uns 20 minutos para mais ou para menos. Finais de semana fico acordado até mais tarde, aproveitar melhor, eu gosto da noite, durante um longo período quase troquei o dia por ela. Também não importa, acordo cedo mesmo assim. Que diabos vou fazer acordado às oito da madrugada em pleno domingão? Não sei, mas aparentemente meu corpo acha que deve pular da cama nesse horário.

Se eu forçar a barra, ficando uns dois dias seguidos indo pra cama bem tarde, eventualmente consigo acordar mais tarde, mas mesmo assim longe das indicadas oito horas de sono. E tudo bem, tirando as pescadas no começo da noite. Coisa de velho. Seria esse o modo como meu corpo me diz: ei, vamos ficar acordado? Você não tem mais tanto tempo pra desperdiçar como antigamente.

Como consequência, os dias estão maiores. As ideias, por outro lado, mais escassas. A idade chega, o sono se manda e o reino dos sonhos fica mais distante. Isso daria uma boa história do Sandman...

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Promethea e a inadequação do pretenso escritor


Recentemente voltei a ler um dos meus autores de quadrinhos favoritos: Alan Moore. Já conheço seus trabalhos mais famosos e aclamados há tempos. Agora estou me concentrando em suas obras menos conhecidas e/ou menos elogiadas. Coisas mais recentes, de sua fase já “de bode” das grandes editoras.

Foi aí que peguei a série Promethea para ler, sem saber de absolutamente nada do que se tratava. Publicada por seu selo America’s Best Comics na Wildstorm (que, incidentalmente, é propriedade da major DC) entre 1999 e 2005, era material antigo. Na minha cabeça, qualquer coisa circa anos 2000 já é velho, exceto quando se trata de rock, o que é algo curioso, mas assunto a ser explorado talvez num outro texto. Voltando ao que interessa: nunca tinha lido nada a respeito desse título em revistas ou sites especializados. Imaginei que seria um trabalho menor – de pouca expressão – do barbudo inglês.

Suas 32 edições explodiram minha cabeça como há um bom tempo não acontecia. A última vez que me senti assim com uma HQ, com a plena certeza de estar lendo algo especial, de outra esfera, que ficaria em minha memória para sempre, foi com o Sandman de Neil Gaiman. Vale esclarecer, eu não li Sandman na época em que foi publicado no Brasil pela primeira vez, mas sim quando a Conrad o relançou naqueles volumes bonitões de capa dura. Ou seja, não faz tanto tempo quanto possa parecer da afirmação inicial.

O engraçado é que as duas obras são primas conceituais e filosóficas em sua exploração do onírico, da criatividade em estado bruto fluindo pelas páginas, cheias de erudição e referências mil.

Na trama da super-heroína que é uma ideia fictícia tornada viva pela imaginação coletiva, Alan Moore fala sobre o poder da criatividade, do surgimento das ideias e de conceitos universais como nossa capacidade ilimitada de imaginação, vida após a morte, espiritualidade e religião. Pega praticamente todas as grandes questões humanas e as interliga em sua maneira pessoal, conferindo sentido e criando seu próprio mito. E ainda dá uma aula completa sobre cabala. Coisa séria, de quem pesquisou e estudou a fundo. Não de quem achou a camada superficial bonitinha após ver num clipe da Madonna.

Ler uma história dessas causa duas reações distintas em pretensos escritores como eu. Por um lado maravilha, fascina. A qualquer um que trabalhe contando histórias, que viva da imaginação, a trama se propõe a ir no cerne da questão: de onde tiramos essas coisas? É tão criativo que é impossível não se contaminar instantaneamente por milhões de ideias, pegar a caneta e começar a rabiscar no pedaço de papel mais próximo o primeiro rascunho de qualquer coisa. É isso que toda boa obra de literatura deve fazer, instigar, não apenas divertir, mas passar adiante um legado. E isso, Promethea faz com gosto.

Por outro lado, impossível para alguém que se aventure no mundo das letras não levar um golpe bem dado no ego. Um verdadeiro chute no saco da autoestima. Caso V de Vingança, Watchmen, Do Inferno ou A Piada Mortal tenham ficado muito no passado, Promethea serviu para relembrar que Alan Moore é de outro nível, o sujeito não sabe brincar que nem gente comum e qualquer outro que tente fica parecendo café com leite.

É inevitável a sensação que veio e sempre me vem depois de ler qualquer grande obra literária em qualquer formato. A vontade de enfiar o teclado no saco e nunca mais escrever uma linha, poupar-me de passar vergonha. Afinal, sei de minhas capacidades e limitações. Sei que posso tentar décadas e não chegarei nem perto de escrever algo tão bom. Ler uma grande obra para alguém com aspirações literárias, ao menos no meu caso, tem o efeito daquela máquina da perspectiva total do Guia do Mochileiro das Galáxias: você subitamente compreende seu tamanho real e sua importância no universo e não suporta a verdade.

Mas esse efeito adverso é passageiro, e alguns dias depois, já recuperado da paulada, lembro-me que nem só de Alan Moores, Salingers, Dostoievskis, etc. é feito o mundo literário. Ele também é feito por seus Dan Browns e Sidney Sheldons (e aí me refiro à qualidade e não número de vendas, se não fico deprimido de novo) da vida. E de repente a competição fica bem mais fácil. Com um pouco da inspiração e empolgação que obras como Promethea espalham feito vírus, já dá para ficar mais animado nesse sentido.

Se não dá para entrar no panteão daqueles que residem nos céus, conforme de tempos em tempos seus residentes nos esfregam o fato na cara com suas melhores obras, ao menos nos inspiram a competir por um lugar ao sol em terra mesmo. E se tudo mais falhar, um consolo: pelo menos chapei o coco por 32 edições.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Sobre a falta do que falar


Com o fim da temporada de Vida e Obra de um Ninguém e a decisão de dar um tempo antes da publicação da segunda temporada de Capangas Contratados, lá se vai uma postagem semanal garantida aqui neste blog. Toda semana, no mesmo dia, vendia o peixe e/ou contava umas histórias de “bastidores” sobre a Sitcom em questão. Era a certeza de que ao menos uma postagem haveria.

Mas agora isso chegou ao fim (momentaneamente), então cabe avisar que, muito provavelmente, o blog, que já não é exatamente um campeão em número de postagens, pode sofrer uma frequência de posts ainda menor. Mas ele não vai morrer, no máximo ficar parado por dois ou três dias. Quatro talvez...

Queria ter a capacidade de sempre ter assunto para postar cinco dias por semana, mas não consigo. E nem quero virar refém dessa plataforma, tendo que tirar temas do nada e forçar a barra só para manter a regularidade. Quando tiver algo para falar, será falado. Sou adepto da filosofia do “se não tem nada de bom pra dizer, fique de boca fechada”.

O blog foi criado com fins de divulgação. O trabalho principal é na Toró Na Cuca. Ele seria só mais uma ferramenta para ajudar no crescimento da editora. Mas as coisas cresceram e tomaram outras proporções. Passei a gostar de escrever aqui, é um bom exercício, já falei sobre isso em outros textos. Jamais imaginei que ia gostar de manter um blog, isso não tem nem de longe a minha cara, mas não é que a vida é cheia de surpresas?

Por isso reforço que não vou abandonar esse espaço (ao menos não tão cedo). Tentarei manter uma média de três posts por semana, que é o mínimo que tenho feito até este momento. Mas pode ser que em algumas semanas esse objetivo falhe por não ter nada de bom para colocar aqui. Ou pode ser que, em algumas semanas, como já aconteceu várias vezes, o negócio fique mais animado, com quatro ou cinco posts semanais. Sábados e domingos vão continuar às moscas, como sempre. Neles, passo longe desse negócio de computador. Dou um descanso aos olhos cansados.

Tudo isso para dizer algo que talvez você nem notasse a diferença se eu não tivesse avisado. E para criar mais um post, afinal, às vezes até a falta de ter o que dizer rende um bom assunto.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Vida e Obra encerrada


O 13º e último episódio de Vida e Obra de um Ninguém foi ao ar semana passada. Agora, é hora de fazer aquele balanço tradicional. De modo geral, gostei muito mais de escrever estes 13 episódios do que todos os 42 de Capangas Contratados (estou contando aí também os episódios da segunda temporada, que já estão no papel).

Foi mais prazeroso de produzir, bem como de ler. Mas claro, só posso falar por mim. O fato é que Capangas sempre foi apenas uma brincadeira com estilos, gêneros e referências. Gosto de tudo isso, mas não me identifico exatamente. Como já devo ter dito num dos textos relacionados a essa Sitcom, não saio por aí dando tiro nos outros ou extorquindo taxas de proteção.

Vida e Obra tem o elemento do pé no chão. Tem muita coisa de verdade, grandes pedaços biográficos, tanto para o protagonista quanto para o autor. Só isso já é suficiente para ela me ser muito mais atraente. Para que eu tenha um carinho especial por ela.

Gostei muito do resultado. É difícil eu ficar satisfeito com um trabalho, mas esse conseguiu. Claro que há sempre uma coisinha ou outra que mudaria se pudesse, isso é normal, faz parte do ofício. O que importa é que consigo acreditar nas tramas (ao menos na maioria delas) e nos personagens. Não só porque eles existem de fato e grande parte dessas coisas aconteceu mesmo. E daí que é verdade? Se eu tivesse escrito mal, ninguém ia acreditar nisso, nem mesmo eu. Acho que essa tarefa, ao menos, eu consegui realizar de maneira satisfatória.

Existem muitas outras histórias a serem contadas. Muita coisa boa ficou de fora e a série poderia ter tido facilmente o dobro de sua duração. Mas eis a encruzilhada: não vou retomá-la. Para mim, essa temporada fechou redonda, e tudo que viesse depois seria apenas repetição do mesmo tema. E, para ser bem franco, esse formato de Sitcom Literária me deu uma cansada (e apesar de ter tido um retorno legal, foi longe do esperado), e preciso de um bom tempo longe dele, se é que vou retomá-lo. Claro, tem a segunda temporada do Capangas, mas depois, quem sabe...

Talvez eu conte essas outras histórias num formato diferente, talvez até em romance, como era para ter sido originalmente, mas isso é coisa bem para o futuro. Tenho outras histórias na fila para tirar da cabeça antes. Talvez eu as acabe deixando de lado e esquecendo, é sempre uma possibilidade.

Não posso encerrar sem antes retomar outro tema bastante falado sobre essa série, seu protagonista e a pessoa que o inspirou. Outro dia minha mãe disse exatamente a mesma coisa que o parceiro Jean Di Barros me falou tantas vezes quando conversávamos sobre a série: seu pai vai pegar mal.

Eu realmente espero que não e reforço que essa nunca foi a intenção. Apesar de não termos o melhor relacionamento do mundo, jamais pretendi usar essa narrativa para descontar mágoas ou como sessão de terapia. Só achei que, apesar de nossos problemas, meu pai é uma figura e tem um monte de histórias interessantes que mereciam ser contadas, ou que inspiraram tramas mais exageradas.

Não perco meu tempo falando de quem não gosto e muito menos escreveria 13 episódios apenas para aplacar qualquer tipo de rixa pessoal. Pelo contrário, não dizem que a sátira é uma das melhores formas de lisonja? Pois então.

Sendo assim: pai, se algum dia você ler a série e este texto aqui, espero que não leve a mal, e sim como uma homenagem. Meio torta, até um pouco sacana, mas ainda assim de boa intenção. Histórias boas devem ser contadas, e as que você inspirou foram feitas com todo carinho possível.

Seja como for, agora estão encerradas. Vida e Obra de um Ninguém está oficialmente terminada. E tenho dito.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O escritor boxeador e a preguiça infinita


Pela minha experiência, escrever, mais do que prática (parte importante do processo, é claro), é ritmo. É manter uma boa toada, uma média diária. Isso ajuda a manter não só a já citada prática, mas a conseguir visualizar rapidamente o caminho percorrido, e, sobretudo e mais importante, a manter a preguiça longe.

Nada atrapalha mais este escritor do que aquela vontade súbita que bate de procrastinar um texto, deixar para depois, a favor de qualquer outra coisa, geralmente bem imbecil. Seja ver besteira na internet, simplesmente coçar o saco ou fazer o balanço das contas do mês, qualquer coisa subitamente fica bem mais atraente que colocar aquelas linhas no papel.
         
O texto vira o inimigo, um fardo a ser superado, às vezes difícil demais. Aí aquela preguiça súbita, a vontade de deixar para depois, se fortalece e ataca. As desculpas vêm nas mais variadas formas, querendo dar justificativas para você mesmo, como os diabinhos em cima do ombro dos desenhos animados.

Qualquer dificuldade vira um entrave e não um desafio a ser superado. Torna-se algo bastante cansativo. A solução: quebrar a cabeça e tentar arrumar um modo de seguir em frente? Que nada, o canal é inventar uma desculpa para deixar pra resolver depois. E aí vai deixando, deixando...

Minha analogia preferida é a do boxeador que causa o clinch pra dar aquela respirada, recuperar o fôlego e a energia para voltar pra luta. Mas nessas, fica agarrado ao adversário até o round acabar. Nessa luta não tem juiz pra separar. E aí, nessa estratégia de ficar clinchando, a luta acaba e você não marca nenhum ponto.

Tenho propensão a arroubos de preguiça aguda, devo admitir. Qualquer coisa que me faça sair da rotina, quebrar meu ritmo, arrisca causar um surto dela e aí fica difícil de voltar pros trilhos. Aí vira um festival de clinches. Ah, hoje é dia da bandeira, amanhã eu faço isso. Sim, eu já usei essa.

Até recuperar o jogo de pernas, vai-se um tempo perdido em absolutamente nada. A solução mais radical, pra me tirar mais rápido da letargia, é arranjar um Apollo Doutrinador (porque dublagem boa é aquela que traduz até o nome do sujeito) que me faça suar no ringue, que dê trabalho, que faça valer o espetáculo.

Antigamente era mais duro sair do abraço da preguiça, cheguei a varar meses. Mas assim como escrever, também peguei prática em fugir desse male. Descobri como encontrar mais fácil os Apollos que vão me desafiar a voltar pro ringue. Claro que às vezes ainda tenho lá minhas recaídas, mas agora sei como evitar rapidamente esse anti-jogo e voltar logo para o combate.

Mas que às vezes é bom ficar sem fazer nada, ah, isso é. O problema é a moderação. Já escrever, bom, já que comecei a traçar esses paralelos com Rocky: escrever é usar o olho do tigre. Se não der tudo, o adversário te derruba. E aí a revanche acaba ficando pra depois. Olho do tigre, Balboa!

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O que aconteceu com Tony Scott?


Tony Scott se matou pulando de uma ponte nos arredores de Los Angeles no último dia 19. Ele tinha 68 anos, esposa, filhos e uma carreira no cinema cheia de sucessos de bilheteria, ainda que não exatamente de crítica. Ah, sim, ele também tinha um irmão muito mais fodão, mas já tratei disso no texto linkado.

Ele deixou cartas em seu carro e casa para família e amigos, mas o conteúdo não foi divulgado. Rumores dizem que ele tinha um tumor inoperável, o que explica o cara cometer suicídio a essa altura do campeonato. Sua esposa, contudo, nega a informação, que só será confirmada ou refutada quando sair o resultado da autópsia, nas próximas semanas.

Por mais triste e surpreendente que seja sua morte, é inegável que ele deixou sua marca em Hollywood, mas devo dizer que não sentirei sua ausência. Nunca fui fã do cara, e, contudo, assisti praticamente tudo que ele dirigiu.

Top Gun – Ases Indomáveis, seu maior sucesso, era muito legal para a época, verdade. Mas por acaso vi um pedaço do filme de novo outro dia e ele envelheceu mal. Esqueça a propaganda pró força aérea/marinha dos EUA ou o contexto homoerótico tão bem apontado por Quentin Tarantino, o grande problema é que esse negócio é cafona demais. Música, diálogos, narrativa, é tudo de uma breguice sem tamanho.

Mesmo seu filme mais elogiado pela crítica, o cult Fome de Viver, eu não gostei. Assisti pela primeira vez alguns meses atrás. Já tinha ouvido falar tanto dele que esperava algo realmente bom, encontrei apenas forma sem conteúdo. Chato.

Tudo bem, Um Tira da Pesada II é bom, um clássico da Sessão da Tarde. Dias de Trovão (o Top Gun com rodas) e O Último Boy Scout podem ser bem apreciados ao se desligar o cérebro, mas o saldo, no fim das contas, é mesmo negativo.

Caramba, não consegui gostar nem de Amor à Queima-Roupa, cujo roteiro é do Tarantino! E o que dizer de Domino – A Caçadora de Recompensas? Talvez o exemplo mais claro de sua estética frenética. A edição desse filme é tão picotada, os planos são tão vertiginosos, as cores tão saturadas, que esse negócio quase me causou convulsões. Não aguentando mais de dor de cabeça e a um passo de ter um surto epilético, simplesmente não consegui terminar de ver o filme. Fui compelido a mudar de canal.

Nos últimos tempos, vinha fazendo uma série de filmes de ação bem medianos estrelados por Denzel Washington, seu mais frequente colaborador. Até resenhei um deles, O Sequestro do Metrô 1 2 3, de 2009 (leia aqui). Seu último filme, Incontrolável, de 2010, também faz parte dessa safra.

Como disse, não sentirei falta dele baseado em sua obra, mas é uma grande pena que tenha morrido. Quem sabe ele ainda pudesse surpreender em sua próxima produção? Agora nunca saberemos, assim como ainda não sabemos o que aconteceu com ele. Trágico.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Os tortuosos caminhos da leitura


Que o brasileiro médio não tem o hábito da leitura, não é nenhuma novidade. Se isso é sabido, por que fui entrar nessa barca furada? Afinal, não serão os esquimós a ler os meus escritos. Sinceramente, não sei. Gosto de escrever, simples assim, que outra coisa estaria fazendo, não fosse isso? E nessas, arco com as consequências da minha escolha.

Assim como gosto de escrever, gosto igualmente, senão mais, de ler. Leio muito e um pouco de tudo. Livros, quadrinhos e até bula de remédio se não tiver outra opção e mais nada pra fazer. Leio qualquer coisa de qualquer gênero. Claro que tenho minhas preferências pessoais, mas nunca nego nenhum tipo de material que caia em minhas mãos. Primeiro eu leio, depois julgo se valeu o tempo investido ou não.

Começou com os quadrinhos. Maurício de Souza. Aliás, muita gente que hoje tem da leitura um hábito, deve muito a esse senhor por incentivar os primeiros passos. Depois, a evolução natural, as HQs de super-heróis. Daí para os livros foi um pulo. Se a história é boa, não interessa se tem belas figuras acompanhando ou não.

Tudo bem, quadrinhos são um hobbie, e nem todos têm condições financeiras de estimulá-lo ou mantê-lo. Nem todos têm acesso ou interesse a essa primeira porta de entrada. É aí que entra a escola. E é aí que ela faz besteira.

Até começa bem, com os infanto-juvenis. Os livros do Pedro Bandeira, clima de aventura, para um moleque de 9, 10 anos, aquilo é o máximo, prende a atenção. Olha só, livros podem ser tão divertidos quanto uma partida de futebol.

E aí você entra no ginásio e parecem fazer questão de demonstrar que aquelas primeiras impressões foram errôneas. É nesse estágio, geralmente, e principalmente no ensino médio, o curso preparatório para o vestibular, que entram os grandes clássicos da literatura brasileira.

De quem foi a brilhante ideia de forçar a leitura de Machado de Assis para um bando de adolescentes? Claro, vamos empurrar-lhes o Machadão goela abaixo, é lógico que eles vão gostar da sua narrativa e vão querer acompanhar suas obras completas. Óbvio que vão se identificar com o enredo, os personagens, as situações atuais, tão reflexivas de suas próprias vidas. Preferirão gastar seu tempo nisso e não querendo desesperadamente perder o cabaço.

Não seria melhor um equivalente adolescente do Pedro Bandeira, para primeiro chamar atenção, “olha só, isso aqui é legal”, e depois, bem depois, ir apresentando os medalhões em doses homeopáticas? Criar o gosto para depois refiná-lo? Sei lá, eu não comecei a ouvir rock por Pink Floyd. Se tivesse, provavelmente não teria continuado.

Nessa época eu já lia bastante, graças à minha paixão pelos quadrinhos. Se dependesse das leituras obrigatórias do colégio, teria me transformado em mais um adolescente cabeça oca que considera a literatura coisa de nerd (com o sentido pejorativo que eles insistiam em conferir ao termo).

E nem dá pra contra-argumentar quando te forçam a ler um livro como Macunaíma. Essa porcaria me marcou tanto negativamente que eu não consigo esquecer essa desgraça, não consigo apagá-la da cabeça, ela me segue eternamente, ao lado de desgraças e rejeições marcantes.

Qual o valor dessa merda? Alguém consegue me explicar? De preferência, sem usar chavões, porque esses eu já ouvi todos. Isso é o melhor que nossa literatura tem para oferecer? Acho que não.

Aí você força um adolescente, na fase rebelde, a ler uma história besta pra caralho, cada página parece demorar um século para passar. Não é a toa que ele dificilmente vá pegar num livro por conta própria... E outra: por que quando Mário de Andrade escreve um texto sem pontuação ele é um gênio e quando o adolescente fazia isso numa redação ele era uma besta? Novo desserviço, valeu, grande Mário!

Não digo que a maioria desses escritores não tenha seus méritos, provavelmente eles os tenham sim e mereçam toda a fama e reconhecimento adquiridos. Mas eu não sei quais são esses méritos porque o trauma foi tão grande que nunca mais os li. Se tivessem pegado leve, aos poucos, na maciota, provavelmente hoje já teria lido todos os clássicos. Da forma que fizeram, hoje resisto a eles como se fossem injeções. Preconceito bobo da minha parte? Claro, mas também produto da minha criação.

Por isso não sinto vergonha nenhuma em dizer que se hoje leio de tudo e constantemente, se não sou um brasileiro médio em se tratando de hábitos de leitura, isso se deve em grande parte ao Cebolinha e ao Batman, não a Machado de Assis e Mário de Andrade. Engole essa, Machadão.