segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Até santos se aposentam


Em 1999, o moleque de 16 anos (prestes a fazer 17) ficou colado à TV no jogo das quartas de final da Libertadores. Clássico contra o maior rival, eles ganham o jogo, mas a decisão vai para os pênaltis. O moleque quase tem um ataque cardíaco de tanta tensão. Sua avó até fica preocupada. Mas o moleque era sadio naqueles tempos, se exercitava, não fumava nem bebia. O coração aguentou e o alívio imediato chega quando a cobrança de Vampeta é defendida. O camisa 12 alviverde é instantaneamente canonizado.

O moleque não ficou tão eufórico assim nem com o tetra do Brasil. Nova ameaça de ataque cardíaco, agora de alegria. Dessa vez ninguém se preocupou. E, no ano seguinte, a história se repetiria, que o diga Marcelinho Carioca. Novo milagre de quem já era santo.

Copa do Mundo de 2002. Felipão colocou Marcos debaixo das traves, era seu homem de confiança. Ele não decepcionou. Oliver quem? Kahn como melhor jogador do campeonato é brincadeira, quando não foi sequer o melhor goleiro do torneio. Você sabe quem foi.

Mas nem com reza brava foi possível evitar a queda do Palmeiras para a segundona. E no mesmo ano do penta. O Arsenal queria levar Marcão embora. Boa grana e futebol de ponta. Ele resolveu ficar para trazer o time de volta ao seu devido lugar. Conseguiu já no ano seguinte.

Ficou e nunca saiu. Se quebrou todo e continuou. Quando todos falavam aquele monte manjado de frases ensaiadas chapa branca, ele abria a boca e dizia o que pensava. Sem travas. Queria ganhar sim, e daí? Com aqueles times de pangarés que foram se sucedendo nos anos seguintes não dava! Ele estava mentindo? Claro que não.

Um mísero campeonato paulista. Estadual não conta, é café com leite. E Marcão lutando contra o corpo estropiado porque queria se despedir dando à torcida (e, claro, a si mesmo) algo mais relevante. Não deu. Futebol não depende só de goleiros consagrados.

Resolveu parar, pendurar as luvas. Cansou. O corpo já não aguenta e a paciência deve ter se esgotado. Não dá para culpá-lo. Time que tem Luan como titular acaba com os brios de qualquer um.

Fim de uma era. Figura para entrar na história do clube, um dos últimos representantes de uma raça em extinção, aquele que joga por amor ao clube, cuja identidade se mescla com ele.

Marcos tem cabeça, vai conseguir se dar bem na vida de aposentado. Já o “Parmera”... prevejo tempos difíceis à frente. Qual a novidade, certo?

Uma coisa é certa: sensação como a daquela Libertadores, de que um coração jovem e saudável poderia arrebentar a qualquer momento, isso nunca mais. Porque não há mais Marcão entre os postes para provocá-la. O moleque de 16 anos se compadece pelo camarada de 29.

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